"A LITERATURA CUMPRE UM PAPEL IMPORTANTE NO EMBELEZAMENTO DE UM MUNDO QUE É MARCADO PELA FEIURA TRAZIDA PELA VIOLÊNCIA": DANIEL MUNDURUKU EM PRIMEIRA PESSOA
- Flup Festa Literária

- 7 de nov.
- 2 min de leitura

Daniel Munduruku é escritor, professor e ativista indígena do povo Munduruku, nascido em Belém (PA). Autor de mais de 60 livros e premiado com o Jabuti e o Prêmio da Academia Brasileira de Letras, integrou a delegação brasileira que a Flup levou ao Festival Étonnants Voyageurs, em Saint-Malo, na França, em junho deste ano. Para ele, a literatura é uma forma de abrir janelas para a utopia em meio à dureza da realidade e de encantar o mundo, especialmente quando encontra crianças e jovens dispostos a se encantar pela palavra. Leia a entrevista abaixo:
Na sua visão, como a literatura atua como uma ferramenta para reencantar o mundo e resistir à lógica predatória do colonialismo?
Acho que a literatura cumpre um papel importante no embelezamento de um mundo que é marcado pela feiura trazida pela violência, pelo negacionismo das culturas, pelas guerras e pela fome. A literatura tem um olhar que pode ajudar a tornar mais leve a existência das pessoas. Isso não implica em ajudar a fazer a revolução necessária do modelo econômico porque nos foi ensinado que o único jeito de vivermos uma vida linda é a adequação ao sistema gestado sobre a ideia do individualismo e da conquista pessoal. A literatura, muitas vezes, reforça o modelo colonialista justamente por que seus fazedores fazem ficção sobre realidades que não experimentaram sobrando apenas a própria realidade imediata. Tem vezes acho que a literatura gera conformação com a realidade que está posta. Outras vezes, que abre a janela da utopia.
A Flup levou um "outro Brasil" para o Festival Étonnants Voyageurs. Após sua participação no festival, que tipo de impacto ou mudança você espera que essa visibilidade internacional traga para a literatura indígena no Brasil e para a percepção dos povos originários no cenário global?
Confesso que não me iludo muito com as perspectivas de futuro que a participação em um evento possa trazer. Penso que em nível individual a literatura indígena tem um alcance absurdo de profundo, mas no coletivo, na política pública internacional não crio expectativas para não esperar que outras pessoas façam o que me cabe fazer. Sou um convicto defensor do presente e nele que sinto a mudança acontecendo.
Quais são suas expectativas para a Flup 25? Que temas, encontros, trocas você espera ver ou provocar? E de que forma você espera que a Flup contribua para fortalecer a literatura indígena no Brasil?
Todos os eventos que participo fazem florescer em mim um tanto de esperança. Ver crianças e jovens lendo, conversando, debatendo, olhando fixamente para quem escreve me dá uma sensação de que a escolha que fiz pela literatura tem sido acertada. Ainda que não tenha nenhuma expectativa para o futuro, ver pessoas envolvidas e encantadas pela palavra alimenta em mim a alegria de ser um indígena que escreve. Quero continuar vendo isso acontecer por todos os cantos do país e a Flup é um importante instrumento para que isso vire uma verdadeira ferramenta de transformação de vidas.








Comentários